segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Sobre o ciúme - Afinal, Capitu traiu ou não Bentinho?


Dizem que Dom Casmurro é um romance autobiográfico que o tema central é o triangulo amoroso e a traição. Na minha quinta leitura do livro ( agora mais madura como sujeito e como estudante) acredito que o tema central seja o ciúme.
                O ciúme é um sentimento que pode ser sentido por qualquer pessoa. Alguns creem que seja uma prova de amor e cuidado, mas a psiquiatria o considera, em determinado nível, um distúrbio paranoico. Esse sentimento pode ser manifestado por razões  como: a ameaça da solidez da relação, diante da possibilidade real de perda da pessoa amada, ou quando se detecta a perda da exclusividade em relação a perda do sujeito passivo do ciúme. Em geral, é um sentimento que desponta quando há uma instabilidade real na relação.  Pode ser normal nesses casos, ainda assim é um sentimento desagradável que provoca angustia, fragilidade e depressão. Esse sentimento é patológico quando a insegurança  provocada pelo ciúme promove reações e certezas infundadas, nesse caso o ciumento não diferencia fantasia da realidade e possui uma extrema desconfiança do ser amado e busca constantemente provas e confissões, pois sente a necessidade de denunciar o amado ( para ele mesmo, talvez). A pessoa com este tipo de paranoia sente-se ansiosa, depressiva, humilhada, com desejo de vingança e com aumento da libido.
                Notamos em Bentinho essa característica de ciúme patológico quando ele desconfia constantemente de Capitu, quer sua atenção exclusiva a todo o momento, e fica desconfiado até quando ela está pensando, no capítulo “Ciúmes do mar” ele diz “Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher...”. Percebe-se também em uma passagem do texto o aumento da libido de Bentinho como no capítulo “A mão de Sancha” que ele sente desejo pela mulher do amigo quando essa lhe toca a mão e lança- lhe um olhar profundo.
                Dom Casmurro narra a estória induzindo o leitor a ser cumplice da traição que ele acredita ter acontecido, e fá-lo de maneira a persuadir quem lê. A ideia de narrar vem do desejo de denunciar a amada e acusa-la, escreve a estória pois já não tem mais ninguém do seu convívio e ele vive ainda com a dor e angustia da suspeita. Suspeita que poderia ser fantasia de um ciumento patológico, pois em nenhuma passagem do texto relata-se a concretização da traição da amada e do amigo. Convence-se pela semelhança de seu filho com o amigo.
                E qual seria a verdade? Na Filosofia Clínica, há dois tipos de verdade: subjetiva e consensual. A verdade subjetiva é aquela que habita a pessoa que está de acordo com a sua singularidade, sua Estrutura de Pensamento. Quanto à verdade consensual, é aquela estabelecida em conjunto pelas pessoas. Dessa forma podemos notar que o narrador de Dom Casmurro acredita que foi traído sim, e essa é sua verdade subjetiva e ele tenta através de sua narrativa transformar a verdade subjetiva em consensual através da narração acusativa que faz no livro.
                Contudo o que se pode saber sobre a estória narrada é somente o que Bentinho nos deixa saber, não se pode dizer com exatidão até que ponto o que ele narra é fantasia de um ciumento, até a semelhança do menino com o amigo, ele o fez crescer longe aos olhos de qualquer um que tenha conhecido Escobar, enviando-o para estudar na Suíça. Os seres humanos com suas complicações de valores e sentimentos criam sua própria realidade e assim suas verdades, e se julgarmos Capitu pela verdade de Bentinho então a resposta para o enigma seria uma sim, Capitu realmente o traiu. Cada um acredita no que lhe é mais conveniente.

2 comentários:

  1. É uma grande verdade. Não tinha visto a coisa toda por esse lado. Bentinho é quem está narrando a história, então nos leva a acreditar no que ele diz. Tinha que ver o lado da Capitu que, infelizmente (ou felizmente), nunca será ouvido. OU então uma foto desse moleque aí pra gente comprovar, heheheheh!!!
    Caramba, você leu o livro 5 vezes já? Isso sim é gostar de Machado de Assis! Ultimamente, custo a ler o livro 1 vez!
    Você tem bastante conhecimento das coisas, deveria escrever mais!
    Abraço!

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