sexta-feira, 29 de junho de 2012

Essa liberdade prende


(Melina Soares Bicalho)
Chegando ao Barreiro de bicicleta, pela estrada velha, avistei alguns cachorros que corriam em minha direção e logo pensei “Que saco! A cachorrada vai correr atrás de mim latindo.”. Surpreendentemente todos seguiram em outra direção e somente um deles, vira-latas, bicolor (escuro com patas loiras), veio atrás de mim, mas ele não veio latindo ele começou a correr ao meu lado. Como em um jogo, ele me acompanhou correndo pelo meu percurso. Nos divertimos aquela manhã, quando estávamos cansados peguei água pra mim na garrafinha da bike e pra ele coloquei num copo descartável, enquanto parei para escrever minhas bobagens em meu bloquinho  ele se divertia se jogando no lago e nadando, correndo atrás das vacas que estavam por ali, brincava com a pessoas que caminhavam. Quando terminei meu texto ele estava deitado ao meu lado descansando e eu li a minha produção a ele, com o olhar atento e voltado para mim ele parecia entender tudo que lhe dizia, parecia gente. Depois voltei a pedalar em sua companhia, mas houve um momento em que nos perdemos porque ele parava para brincar com todos que passavam. Quando estava quase indo embora nos encontramos, então nos despedimos e ele me acompanhou até a estrada que eu peguei para ir embora. Ele ficou sentado com a língua pra fora me vendo sumir no meu caminho pra casa.  Agora somos amigos de pedalada, sempre que vou ali de manhã ele me acompanha. Tornou-se um companheiro. Muitas pessoas em minha situação o levariam para casa. As pessoas são assim, desejam possuir tudo que lhes agrada ou que desperte nelas o sentimento de amor, por isso colocam passarinhos em gaiolas, coleiras em cachorros, cabresto no cavalo, e anel no dedo da namorada. Houve tempos em que até cinto de castidade era colocado em mulheres. Todos esses objetos são símbolos de possessividade, e isso é o contrário de amor. Parece-me mais uma atitude em virtude do medo da solidão ou carência. Não podemos possuir nada verdadeiramente, muito menos pessoas, posse é ilusão.  O que nos une é o respeito à liberdade do outro, talvez a melhor forma de demonstrar os sentimentos e tê-los retribuídos seja através do amor desinteressado sem posses e cobranças, porque o amor só é amor quando deixa o outro livre. Mal sabem os possessivos que essa liberdade é que prende.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Planando no vento



( Melina Soares Bicalho)

Voltando para casa pelas estradas da Canastra e admirando os grandes paredões rochosos, num fim de tarde de domingo, no início do inverno seco de Minas Gerais com o sol raiando no céu azul e o vento forte e frio, não pudemos deixar de notar dois gaviões que estavam parados no ar. Eles estavam contra o vento e planavam, isso os mantinha no mesmo lugar. Às vezes eles iam pra frente de acordo com a velocidade do vento. De repente vimos um deles planando de ré, pois o vento, então, era tão forte que o fazia retroceder, e ele não tentava bater asas e voar contra a corrente de vento, simplesmente deixava-se levar e continuava em equilíbrio no ar planando sem se mover.
Não resistimos à visão e descemos do carro para ver a cena. Meus amigos admirados faziam fotos e vídeos e se divertiam com a cena. E eu comecei a refletir sobre o quão fantástica é a natureza e quanta sabedoria aquele momento me trazia. Os pássaros não relutavam contra o vento, respeitavam seu curso natural, se jogavam e planavam. Muitas vezes na vida deixamos nossos desejos, quase sempre egoístas, guiar nossas ações e consequentemente quantas atitudes bobas e incoerentes tomamos. Se aprendêssemos a respeitar o curso natural da vida e se não deixássemos nossos medos fazer-nos desistir ou se não seguíssemos os impulsos guiados pelo medo, carência e insegurança, talvez assim seríamos mais coerentes em nossas atitudes.
Respeitar o curso natural do universo está longe de significar não fazer nada e esperar por uma providencia divina, um milagre, ou qualquer coisa do gênero. Seria, ao contrário, como faziam as aves que observávamos, apenas se jogar na vida sem medo e aceitar certas circunstâncias, mas nunca deixar de manter o equilíbrio e de agir no momento oportuno com respeito a tudo e todos que possam surgir no nosso caminho durante nosso voo pela vida.