(Melina Soares Bicalho)
Chegando ao Barreiro de bicicleta, pela estrada velha,
avistei alguns cachorros que corriam em minha direção e logo pensei “Que saco!
A cachorrada vai correr atrás de mim latindo.”. Surpreendentemente todos
seguiram em outra direção e somente um deles, vira-latas, bicolor (escuro com
patas loiras), veio atrás de mim, mas ele não veio latindo ele começou a correr
ao meu lado. Como em um jogo, ele me acompanhou correndo pelo meu percurso. Nos
divertimos aquela manhã, quando estávamos cansados peguei água pra mim na garrafinha
da bike e pra ele coloquei num copo descartável, enquanto parei para escrever
minhas bobagens em meu bloquinho ele se
divertia se jogando no lago e nadando, correndo atrás das vacas que estavam por
ali, brincava com a pessoas que caminhavam. Quando terminei meu texto ele
estava deitado ao meu lado descansando e eu li a minha produção a ele, com o
olhar atento e voltado para mim ele parecia entender tudo que lhe dizia,
parecia gente. Depois voltei a pedalar em sua companhia, mas houve um momento
em que nos perdemos porque ele parava para brincar com todos que passavam. Quando
estava quase indo embora nos encontramos, então nos despedimos e ele me
acompanhou até a estrada que eu peguei para ir embora. Ele ficou sentado com a
língua pra fora me vendo sumir no meu caminho pra casa. Agora somos amigos de pedalada, sempre que
vou ali de manhã ele me acompanha. Tornou-se um companheiro. Muitas pessoas em
minha situação o levariam para casa. As pessoas são assim, desejam possuir tudo
que lhes agrada ou que desperte nelas o sentimento de amor, por isso colocam
passarinhos em gaiolas, coleiras em cachorros, cabresto no cavalo, e anel no
dedo da namorada. Houve tempos em que até cinto de castidade era colocado em
mulheres. Todos esses objetos são símbolos de possessividade, e isso é o
contrário de amor. Parece-me mais uma atitude em virtude do medo da solidão ou
carência. Não podemos possuir nada verdadeiramente, muito menos pessoas, posse
é ilusão. O que nos une é o respeito à
liberdade do outro, talvez a melhor forma de demonstrar os sentimentos e tê-los
retribuídos seja através do amor desinteressado sem posses e cobranças, porque
o amor só é amor quando deixa o outro livre. Mal sabem os possessivos que essa
liberdade é que prende.

