domingo, 18 de novembro de 2012

Passageiros

       "Que trem difícil de entender é essa nossa vida." - reflete a mineira que lança seu olhar para dentro de si em um momento de mudanças. "Ô trem, pra onde é que você quer levar seus passageiros? " - questiona. A passageira desse trem assim como a maior parte de seus tripulantes complicam o que é simples. Apegados em entender de onde viemos e para onde vamos, nos esquecemos de prestar a atenção nos acontecimentos durante o percurso, são eles que fazem de nós seres viventes, portanto o mais importante não é saber do inicio nem do fim, e sim aprender a lidar com o agora.
        Para entender a vida basta observar a vida ao redor, não só as pessoas e o que acontecem com elas, a observação da natureza nos ensina muito sobre o percurso natural da vida, que muitas vezes por ignorancia acabamos interferindo negativamente por não entender os ciclos de mudança que a nossa trajetória nos propõe naturalmente. As borboletas são sensacionais exatamente por serem a representação da mudança que o ciclo de suas vidas passa. Sua mudança de lagarta, casulo e borboleta pode nos ensinar muito sobre os ciclos da vida e de como devemos viver o presente. Imagina se uma larva quiser ser borboleta antes da hora. Seria comico ver uma larva tentar voar.
        Ser um animal dotado de inteligencia significa que somos aptos a aprender, ao desenvolvimento, logo não é muito complicado entender a nossa razão de existir. Vivemos para desenvolver, mas não existe aprendizado sem interação, então precisamos dos outros. E assim buscamos relações com as pessoas que conhecemos. Embora seja uma necessidade humana, relacionar não é fácil, pois cada um possui suas caracteristicas, seus modos de lidar com o outro, de vivenciar uma situação e de aprender (ou não) com as interações que estabelece.
        Essa necessidade latente de relacionar gera sentimento de posse em algumas pessoas. Em algum momento de carencia afetiva alguém acreditou que o outro fosse SEU. E essa maneira equivocada de pensar cria crenças e modos de relacionar prejudiciais ao desenvolvimento. É necessário respeitar a vida do outro sem tentar manipular ou "segurar" alguém. Os tripulantes do trem da vida são passageiros na vida uns dos outros. Alguns vêm e ficam ao nosso lado por mais tempo, outros são fugazes , mas todos tem sua importancia. Precisa-se entender o aprendizado que as relações nos trazem, e ser tranquilo com o fim da passagem dos outros em nossa vida.
         Viver é aprender com o outro , é movimento, e interação. É fácil receber uma pessoa nova em nossas vidas, pois anseiamos pelo aprendizado que as relações nos trazem. Difícil é ser maduro para desconstruir a crença do "felizes para sempre" e aceitar quando alguém sai de nossa vida completando um ciclo de aprendizagem.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Sobre o ciúme - Afinal, Capitu traiu ou não Bentinho?


Dizem que Dom Casmurro é um romance autobiográfico que o tema central é o triangulo amoroso e a traição. Na minha quinta leitura do livro ( agora mais madura como sujeito e como estudante) acredito que o tema central seja o ciúme.
                O ciúme é um sentimento que pode ser sentido por qualquer pessoa. Alguns creem que seja uma prova de amor e cuidado, mas a psiquiatria o considera, em determinado nível, um distúrbio paranoico. Esse sentimento pode ser manifestado por razões  como: a ameaça da solidez da relação, diante da possibilidade real de perda da pessoa amada, ou quando se detecta a perda da exclusividade em relação a perda do sujeito passivo do ciúme. Em geral, é um sentimento que desponta quando há uma instabilidade real na relação.  Pode ser normal nesses casos, ainda assim é um sentimento desagradável que provoca angustia, fragilidade e depressão. Esse sentimento é patológico quando a insegurança  provocada pelo ciúme promove reações e certezas infundadas, nesse caso o ciumento não diferencia fantasia da realidade e possui uma extrema desconfiança do ser amado e busca constantemente provas e confissões, pois sente a necessidade de denunciar o amado ( para ele mesmo, talvez). A pessoa com este tipo de paranoia sente-se ansiosa, depressiva, humilhada, com desejo de vingança e com aumento da libido.
                Notamos em Bentinho essa característica de ciúme patológico quando ele desconfia constantemente de Capitu, quer sua atenção exclusiva a todo o momento, e fica desconfiado até quando ela está pensando, no capítulo “Ciúmes do mar” ele diz “Venho explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha mulher...”. Percebe-se também em uma passagem do texto o aumento da libido de Bentinho como no capítulo “A mão de Sancha” que ele sente desejo pela mulher do amigo quando essa lhe toca a mão e lança- lhe um olhar profundo.
                Dom Casmurro narra a estória induzindo o leitor a ser cumplice da traição que ele acredita ter acontecido, e fá-lo de maneira a persuadir quem lê. A ideia de narrar vem do desejo de denunciar a amada e acusa-la, escreve a estória pois já não tem mais ninguém do seu convívio e ele vive ainda com a dor e angustia da suspeita. Suspeita que poderia ser fantasia de um ciumento patológico, pois em nenhuma passagem do texto relata-se a concretização da traição da amada e do amigo. Convence-se pela semelhança de seu filho com o amigo.
                E qual seria a verdade? Na Filosofia Clínica, há dois tipos de verdade: subjetiva e consensual. A verdade subjetiva é aquela que habita a pessoa que está de acordo com a sua singularidade, sua Estrutura de Pensamento. Quanto à verdade consensual, é aquela estabelecida em conjunto pelas pessoas. Dessa forma podemos notar que o narrador de Dom Casmurro acredita que foi traído sim, e essa é sua verdade subjetiva e ele tenta através de sua narrativa transformar a verdade subjetiva em consensual através da narração acusativa que faz no livro.
                Contudo o que se pode saber sobre a estória narrada é somente o que Bentinho nos deixa saber, não se pode dizer com exatidão até que ponto o que ele narra é fantasia de um ciumento, até a semelhança do menino com o amigo, ele o fez crescer longe aos olhos de qualquer um que tenha conhecido Escobar, enviando-o para estudar na Suíça. Os seres humanos com suas complicações de valores e sentimentos criam sua própria realidade e assim suas verdades, e se julgarmos Capitu pela verdade de Bentinho então a resposta para o enigma seria uma sim, Capitu realmente o traiu. Cada um acredita no que lhe é mais conveniente.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Essa liberdade prende


(Melina Soares Bicalho)
Chegando ao Barreiro de bicicleta, pela estrada velha, avistei alguns cachorros que corriam em minha direção e logo pensei “Que saco! A cachorrada vai correr atrás de mim latindo.”. Surpreendentemente todos seguiram em outra direção e somente um deles, vira-latas, bicolor (escuro com patas loiras), veio atrás de mim, mas ele não veio latindo ele começou a correr ao meu lado. Como em um jogo, ele me acompanhou correndo pelo meu percurso. Nos divertimos aquela manhã, quando estávamos cansados peguei água pra mim na garrafinha da bike e pra ele coloquei num copo descartável, enquanto parei para escrever minhas bobagens em meu bloquinho  ele se divertia se jogando no lago e nadando, correndo atrás das vacas que estavam por ali, brincava com a pessoas que caminhavam. Quando terminei meu texto ele estava deitado ao meu lado descansando e eu li a minha produção a ele, com o olhar atento e voltado para mim ele parecia entender tudo que lhe dizia, parecia gente. Depois voltei a pedalar em sua companhia, mas houve um momento em que nos perdemos porque ele parava para brincar com todos que passavam. Quando estava quase indo embora nos encontramos, então nos despedimos e ele me acompanhou até a estrada que eu peguei para ir embora. Ele ficou sentado com a língua pra fora me vendo sumir no meu caminho pra casa.  Agora somos amigos de pedalada, sempre que vou ali de manhã ele me acompanha. Tornou-se um companheiro. Muitas pessoas em minha situação o levariam para casa. As pessoas são assim, desejam possuir tudo que lhes agrada ou que desperte nelas o sentimento de amor, por isso colocam passarinhos em gaiolas, coleiras em cachorros, cabresto no cavalo, e anel no dedo da namorada. Houve tempos em que até cinto de castidade era colocado em mulheres. Todos esses objetos são símbolos de possessividade, e isso é o contrário de amor. Parece-me mais uma atitude em virtude do medo da solidão ou carência. Não podemos possuir nada verdadeiramente, muito menos pessoas, posse é ilusão.  O que nos une é o respeito à liberdade do outro, talvez a melhor forma de demonstrar os sentimentos e tê-los retribuídos seja através do amor desinteressado sem posses e cobranças, porque o amor só é amor quando deixa o outro livre. Mal sabem os possessivos que essa liberdade é que prende.

terça-feira, 26 de junho de 2012

Planando no vento



( Melina Soares Bicalho)

Voltando para casa pelas estradas da Canastra e admirando os grandes paredões rochosos, num fim de tarde de domingo, no início do inverno seco de Minas Gerais com o sol raiando no céu azul e o vento forte e frio, não pudemos deixar de notar dois gaviões que estavam parados no ar. Eles estavam contra o vento e planavam, isso os mantinha no mesmo lugar. Às vezes eles iam pra frente de acordo com a velocidade do vento. De repente vimos um deles planando de ré, pois o vento, então, era tão forte que o fazia retroceder, e ele não tentava bater asas e voar contra a corrente de vento, simplesmente deixava-se levar e continuava em equilíbrio no ar planando sem se mover.
Não resistimos à visão e descemos do carro para ver a cena. Meus amigos admirados faziam fotos e vídeos e se divertiam com a cena. E eu comecei a refletir sobre o quão fantástica é a natureza e quanta sabedoria aquele momento me trazia. Os pássaros não relutavam contra o vento, respeitavam seu curso natural, se jogavam e planavam. Muitas vezes na vida deixamos nossos desejos, quase sempre egoístas, guiar nossas ações e consequentemente quantas atitudes bobas e incoerentes tomamos. Se aprendêssemos a respeitar o curso natural da vida e se não deixássemos nossos medos fazer-nos desistir ou se não seguíssemos os impulsos guiados pelo medo, carência e insegurança, talvez assim seríamos mais coerentes em nossas atitudes.
Respeitar o curso natural do universo está longe de significar não fazer nada e esperar por uma providencia divina, um milagre, ou qualquer coisa do gênero. Seria, ao contrário, como faziam as aves que observávamos, apenas se jogar na vida sem medo e aceitar certas circunstâncias, mas nunca deixar de manter o equilíbrio e de agir no momento oportuno com respeito a tudo e todos que possam surgir no nosso caminho durante nosso voo pela vida.  

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Papo de academia


Essa manhã enquanto malhava na academia ouvia um grupo de mulheres que conversavam enquanto se exercitavam. Uma delas relatava indignada que seu companheiro, que já mora com ela há algum tempo, nunca a presenteou com uma aliança. Ela contou que ele já a presenteou com carro, que é um super companheiro, mas que se recusava a casar-se no papel e colocar uma aliança no dedo dela.A mulherada toda que a escutava a apoiava em pressioná-lo para conseguir, outras diziam pra ela desistir e diziam que era mais fácil que ela conseguisse uma aliança de outro. E eu que estava ali próxima sem participar do assunto, mas ouvindo tudo, pensei "Por que será que isso é tão importante para ela?"
Me ocorreu que a culpa de toda e qualquer frustração que temos é da expectativa que depositamos nos outros. Não existiriam desilusões se as pessoas não esperassem tanto umas das outras, ou pelo menos se as pessoas esperassem as coisas certas de cada pessoa. Além do mais, é fácil culpar os outros de nos haver iludido, quando na verdade a própria pessoa é que esperou do outro algo que ele não poderia atender.
Acho engraçado ver que os tempos mudam, mas as pessoas ainda querem validar tudo. Estamos nos desumanizando, e burocratizando os sentimentos, e consequentemente as relações.Parece que o amor de alguém por mim não é valido se o cara não colocar uma aliança no meu dedo, ou assinar um papel e prometer coisas para até o dia de sua morte, ou ainda até que divulgue nas redes sociais seu status de que tem um compromisso.
Relacionamento é conscientização da interligação entre duas pessoas. É muito mais importante valorizar o sentimento compartilhado , a dedicação real no dia a dia, o respeito mútuo, a confiança, do que um símbolo que ateste tudo isso.
Deveriamos aprender a valorizar os momentos que compartilhamos com as pessoas que passam em nossas vidas mas sem fantasiar um futuro anel no dedo, deixar as pessoas nos surpreender e nos acrescentar naquilo que ela são capazes de nos dar. Afinal nos relacionamos para que? Todo e qualquer relacionamento e interação com outras pessoas, de qualquer nivel que seja serve para nosso aprendizado pessoal, para nosso enriquecimento. Se pudessemos ter uma unica expectativa: a de viver novas experiencias ao lado de pessoas que nos despertam sensações indescritiveis, sem cobrar coisas desnecessárias para nosso crescimento pessoal, talvez existiriam menos pessoas desiludidas e mais pessoas felizes e apaixonadas.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sex machine


Existem momentos e fases da vida em que tudo o queremos é focar em nós mesmos, e nos nossos objetivos de vida, trabalho, dinheiro, carreira, estudos, etc. Tudo isso é fantástico, pois não há uma razão de existir se não for a de se desenvolver e melhorar as próprias capacidades. Procuramos nos melhorar estudando, lendo bons livros, seguindo a influencia de pessoas que admiramos, mas nessa busca pelo nosso aprimoramento podemos nos perder dentro de nós mesmos e não perceber o efeito que causamos nas pessoas que nos circundam.
O ser humano tem a necessidade de se relacionar com outros, com o meio, e através da linguagem (corporal, verbal,etc) criamos elos com todos e tudo ao nosso redor. Esses elos são importantes para nossa sobrevivencia e amadurecimento, e ao nos relacionar criamos rótulos para os niveis de cada relação que vivenciamos. Classificamos as pessoas de acordo com a sua "utilidade" em nossas vidas, e essa utilidade é sempre determinada pelas atitudes delas na convivencia conosco.
A amizade é sem dúvidas a relação mais sincera e bela que podemos ter, é baseada na confiança, respeito mútuo e admiração, e geralmente um ajuda o outro havendo uma troca saudavel e necessaria. Esses amigos são eleitos por nós para compartilhar momentos de nossas vidas, diferentemente de família que a gente não pode escolher (não que as relações familiares não sejam tão necessárias, mas a amizade verdadeira é algo espontaneo e muito sincero).
Quando se trata de relações do nível sexo-afetivo rotulamos pessoas da mesma maneira, e de acordo com suas atitudes, percebemos quem seria um bom "fucking friend", namorado, marido, etc, etc. Rotulamos e nos servimos das pessoas , estamos sempre compartilhando daquilo que ela pode nos oferecer, justo?
E na freneticidade das nossas vivencias e relações nem sempre paramos pra pensar nas seguintes questões: Qual o rótulo que recebo das pessoas com quem me relaciono? Qual a minha utilidade na vida dessas pessoas? Que imagem eu passo através da minha postura?
Tão centrados em nós mesmos, e tão esquecidos de que não somos nada sem o todo (e todos). E sem essa reflexão sobre nossas atitudes viveremos vitimas de nós mesmos e nossas atitudes (que dependendo do contexto pode ser consideradanegativa e poderá atrapalhar nossas relações afetivo-sexuais).
As pessoas são acostumadas com relações fechadas como namoros e casamentos, pois o nosso contexto é ainda o de garantir a confiança e a lealdade dos parceiros para a vida através de alianças "sólidas". Os relacionamentos do tipo mais livres como por exemplo os "fucking friends" são as vezes encarados com um certo receio da parte das pessoas que querem sentir que a relação é real.
Ser fucking friend de alguém não é sinonimo de que alguém está se aproveitando de nós e/ou nos iludindo, desde que você saiba o que quer e a sua vontade seja não ter uma "aliança sólida"( e divulgada socialmente ) com alguém, pode significar não se sentir presa a alguém ´somente porque dividimos momentos de sexo. O único problema das relações abertas, é quando seu Fucking Friend não é seu friend, seria o mesmo que dividir momentos de intimidade ( que só são realmente compensatórios quando há confiança e respeito) com alguém que , na verdade, não podemos afirmar que seja digno de confiaça e que em algum momento poderá nos tratar com falta de respeito ou ainda nos enxergar como SEX MACHINE.
É preciso parar as vezes e refletir sobre as nossas atitudes diante das pessoas que nos relacionamos (em qualquer nível de relacionamento), pois as relações só são bacanas de verdade quando elas existem para somar em nossas vidas. Vivemos em um mundo de inter-ação, e nossas interações geram reações e movimento, que podem refletir em nós mesmos e naquilo que nos faz feliz. Devemos sempre observar a reação que estamos causando nos outros, entender qual é o rótulo que nos está sendo dado e aprender com essas atitudes para transformar o nosso jeito de agir com as pessoas, e então nos tornarmos seres melhores dentro dos relacionamentos que estabelecemos com os integrantes de nossas vidas. "Insanidade é fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes." ( Einstein)