Dizem que Dom Casmurro é um romance autobiográfico que o
tema central é o triangulo amoroso e a traição. Na minha quinta leitura do
livro ( agora mais madura como sujeito e como estudante) acredito que o tema
central seja o ciúme.
O
ciúme é um sentimento que pode ser sentido por qualquer pessoa. Alguns creem
que seja uma prova de amor e cuidado, mas a psiquiatria o considera, em
determinado nível, um distúrbio paranoico. Esse sentimento pode ser manifestado
por razões como: a ameaça da solidez da
relação, diante da possibilidade real de perda da pessoa amada, ou quando se
detecta a perda da exclusividade em relação a perda do sujeito passivo do ciúme.
Em geral, é um sentimento que desponta quando há uma instabilidade real na
relação. Pode ser normal nesses casos,
ainda assim é um sentimento desagradável que provoca angustia, fragilidade e depressão.
Esse sentimento é patológico quando a insegurança provocada pelo ciúme promove reações e
certezas infundadas, nesse caso o ciumento não diferencia fantasia da realidade
e possui uma extrema desconfiança do ser amado e busca constantemente provas e
confissões, pois sente a necessidade de denunciar o amado ( para ele mesmo,
talvez). A pessoa com este tipo de paranoia sente-se ansiosa, depressiva,
humilhada, com desejo de vingança e com aumento da libido.
Notamos
em Bentinho essa característica de ciúme patológico quando ele desconfia
constantemente de Capitu, quer sua atenção exclusiva a todo o momento, e fica
desconfiado até quando ela está pensando, no capítulo “Ciúmes do mar” ele diz “Venho
explicar-te que tive tais ciúmes pelo que podia estar na cabeça de minha
mulher...”. Percebe-se também em uma passagem do texto o aumento da libido de
Bentinho como no capítulo “A mão de Sancha” que ele sente desejo pela mulher do
amigo quando essa lhe toca a mão e lança- lhe um olhar profundo.
Dom
Casmurro narra a estória induzindo o leitor a ser cumplice da traição que ele
acredita ter acontecido, e fá-lo de maneira a persuadir quem lê. A ideia de
narrar vem do desejo de denunciar a amada e acusa-la, escreve a estória pois já
não tem mais ninguém do seu convívio e ele vive ainda com a dor e angustia da
suspeita. Suspeita que poderia ser fantasia de um ciumento patológico, pois em
nenhuma passagem do texto relata-se a concretização da traição da amada e do
amigo. Convence-se pela semelhança de seu filho com o amigo.
E
qual seria a verdade? Na Filosofia Clínica, há dois tipos de verdade: subjetiva
e consensual. A verdade subjetiva é aquela que habita a pessoa que está de
acordo com a sua singularidade, sua Estrutura de Pensamento. Quanto à verdade
consensual, é aquela estabelecida em conjunto pelas pessoas. Dessa forma
podemos notar que o narrador de Dom Casmurro acredita que foi traído sim, e
essa é sua verdade subjetiva e ele tenta através de sua narrativa transformar a
verdade subjetiva em consensual através da narração acusativa que faz no livro.
Contudo
o que se pode saber sobre a estória narrada é somente o que Bentinho nos deixa
saber, não se pode dizer com exatidão até que ponto o que ele narra é fantasia
de um ciumento, até a semelhança do menino com o amigo, ele o fez crescer longe
aos olhos de qualquer um que tenha conhecido Escobar, enviando-o para estudar
na Suíça. Os seres humanos com suas complicações de valores e sentimentos criam
sua própria realidade e assim suas verdades, e se julgarmos Capitu pela verdade
de Bentinho então a resposta para o enigma seria uma sim, Capitu realmente o traiu.
Cada um acredita no que lhe é mais conveniente.
